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Habib’s Praia Shopping

Sempre que eu venho aqui (estou escrevendo isto do shopping, sentado imediatamente fora do restaurante) eu me arrependo nos primeiros três minutos.

Na primeira vez que caí na idiotice de atravessar o umbral para tal nefasta experiência levou um pouco mais de tempo.

Vinte e cinco minutos.

Esse foi o espaço de tempo decorrido entre eu ter pedido um frapê e o garçom ter trazido um tubo de ensaio contendo um caldo amarronzado e morno, e não o copo alto e largo contendo sorvete de café batido, calda de chocolate e chantilly por cima, o que precipitou o seguinte diálogo:

– Ei, isso não vinha com calda e uma cobertura?
– É, mas acabou hoje.
– Você então deveria ter avisado que aí eu não pediria.
– Ah, mas agora é tarde, vai ter que pagar!

Eu fui imbecil ao ter entrado no restaurante mas não sou burro. Levantei e fui embora.
Em lugares assim não adianta reclamar do garçom, pois seu supervisor é provavelmente mais novo e mais sem moral que ele e se isso aconteceu é porque o ambiente permite.

Ne segunda vez, as esfirras haviam acabado. As esfirras.
Aqui é um lugar de vender comida “árabe” e as esfirras acabaram.

Hoje, venho aqui ao Praia Shopping esperar um compromisso e forrar o bucho pois ainda não comi nas últimas sete horas (são sete e meia e tive apenas um copo d’água desde o almoço) e aproveitei para me sentar perto de uma tomada, ao lado do Habib’s. “Por que não um quibe?”, eu me pergunto.
“Porque você não é otário!”, minha experiência deveria ter me alertado.
Mas infelizmente esse não foi o caso.

Paguei pelos quitutes na área externa, vi que havia um ambiente fechado, presumivelmente com ar-condicionado e perguntei se poderia me sentar lá dentro ao invés de aqui fora, no calor molhado natalense-pós-chuva.
“Não” foi a resposta, pois “o sistema daqui é diferente do lá de dentro”.

O “sistema” é um mostrador digital de três dígitos onde aparecem números tão ou mais aleatórios que o próximo Número Primo (minha ficha era a 98, o que não impediu que as fichas 100, 103, 96, 91, 113, 97 e 06 fossem chamadas, nesta ordem, antes da minha).
O caixa onde me encontrava dista aproximadamente sessenta centímetros do caixa interno, onde é possível comprar coisas para se comer lá dentro, no friozinho, mas a senhorita que tratava comigo (não foi a atendente de caixa que disse o não, mas a supervisora ao seu lado) se recusou a promover a perpetração de tal hercúlea tarefa que seria levar meus dois quibes até o balcão interno para onde poderiam ser recebidos por mim, de bom grado.

Pois bem. Me sento e espero, com antecipação, os números anteriormente relacionados passarem, enquanto já estou arrependido de ter gasto meu dinheiro aqui.
Alguns minutos vão embora rapidamente enquanto meu computador volta à vida e checo meus emails e leio algumas páginas inteiras sobre o universo, a vida e tudo o mais.

Quanto tempo demora para se prepararem dois quibes num fast-food que vive de vender quibes e esfirras?
Quinze minutos, aparentemente.

Meu número sobe (um trocadilho com my number’s up em mais de um sentido), vou receber minha comida e vejo uma bandeja vermelha com um prato de vidro modelo casa-de-vó com dois tufos enegrecidos.
“E nada mais”, diria o corvo.

“Por favor, senhorita, poderia me dar limões?”
Eis então que surge um saquinho ridiculamente pequeno com três pedaços, que pela aparência e ângulo de corte, julgo serem, cada um, 1/16 de um limão podre.
Digo “podre” porque limões que conheço não têm a casca preta nem a polpa amarela.

“Err… Com licença novamente. Sim, eu gostaria de mais limões, se possível…” digo, enquanto completo apenas mentalmente “…pois estes três-dezesseis-avos estão podres!”.
Outro saquinho igualmente ridículo, mas com minifatias razoavelmente acinzentadas, menos pretas.

Espero mais alguns segundos para ver se a movimentação da atendente vai produzir pelo menos uma folha absorvente com a qual pretendo limpar as mãos. Nada.

“Mais uma vez, senhorita, desculpe importuná-la mas gostaria de guardanapos…”, menciono de passagem enquanto penso “…que são elementos de primeira necessidade para quem come quibes fritos com limão espremido”.
Dois. Nada mais que isso.

“Mais, por favor.”
Pego minhas cinco folhas extras e venho escrever isto.

Geralmente eu daria mais informações sobre o local, mas hoje direi apenas: “Fiquem longe daqui, este estabelecimento é um lixo!”

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Artigo escrito in loco, ontem, finalizado às 20h.