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Molho de tomate

Antes de qualquer coisa, primeiro leia todas as instruções e certifique-se de que as entendeu por completo (caso precise de clarificação, me pergunte nos comentários ou por email) e de que você tem todos os ingredientes por perto. Não adianta começar a receita para lá no meio notar que não tem pimentão na casa ou que sua frigideira é muito pequena para comportar as cebolas.
Outra coisa: você pode, obviamente, diminuir as quantidades proporcionalmente (tudo pela metade, por exemplo) ou substituir/adicionar ingredientes. Não gosta de cebola mas curte um aipo? Sem problemas. Prefere um molho mais pedaçudo e não se importa com caroços? Deixe a peneira guardada! Gostaria de ver umas alcaparras flutuando ou lascas de cebolinha cortada para dar uma corzinha? Por favor, faça isso (e me diga o que achou).
A receita não é explosiva ou imediatamente nociva, então substitua e acrescente à vontade. Mas só faça isso depois de entender todos os passos da minha receita e, conscientemente, resolver mudar. Recomendo que não se incluam cenouras ou batatas, no entanto. Elas não vão muito bem em molhos (na minha opinião).

Podemos começar? Então vamos lá. Você vai precisar de:

  • 1,5 kg de tomates extremamente maduros (+/- 20 tomates médios);
  • 560 g de cebolas brancas para caramelizar (+/- 4 cebolas grandes);
  • 150 g de cebolas brancas ou roxas para usar cruas (+/- 2 cebolas médias);
  • 150 g de pimentões verdes (+/- 2 pimentões médios);
  • 2 dentes de alho grandes;
  • 75 ml de vinho tinto (ou 25 ml de vinho do porto + 50 de água);
  • 15 ou 30ml (1 ou 2 colheres de sopa) de azeite, dependendo do tamanho da sua frigideira;
  • sal, pimenta-do-reino, noz-moscada e, talvez, um pouco de açúcar.
  • Facas, superfície de apoio, panelas e utensílios gerais eu estou supondo que você já tenha. Mas preciso dar atenção aos seguintes itens: caçarola funda, frigideira larga e peneira média.

    A primeira etapa é fritar (ou dourar, para os cromaticamente inclinados) o alho amassado. [1]

    Minha frigideira tem um latifúndio uma área útil de 707cm² (cujas paredes laterais dão uma capacidade total de três litros – sim, é uma panela profissional), que necessita de duas colheres (30 ml) de óleo para cobrir toda sua superfície confortavelmente, mas provavelmente a que você tem em casa usará só de uma colher.
    O alho já cortado vai ao óleo (costumo usar azeite, especialmente dos mais baratos, que são excelentes durante cozimento e fritura) em fogo baixo até ficar mais ou menos frito quando, então, desligo o fogo (como minha panela tem fundo triplo, o calor latente vai se encarregar de acabar o processo). Após alguns segundos, retiro o alho com um pegador, mantendo o óleo – que agora está deliciosamente alhado – na panela, pronto para receber as cebolas cortadas grosseiramente. [2]

    Clique na imagem para ampliar a região de interesse.

    Clique na imagem para ampliar a região de interesse.

    cebolasSempre, sempre, sempre nesta receita use fogo baixo. Fogo alto não leva ninguém a lugar nenhum – ou seja, vai levar você à Terra do Gosto de Queimado (TGQ) mais rapidamente.
    Jogue as cebolas na frigideira [3] com algum sal por cima, tampe-a e deixe. O processo de caramelização deve demorar até meia hora, o que não significa que você vai deixar de observar o andamento de tempos em tempos (lembre-se da TGQ). Se possível, não empilhe os pedaços – tente deixar tudo numa camada só (daí a ênfase na largura da frigideira).
    Se o vinho que você pretende usar for muito seco, salpique duas ou três pitadas de açúcar sobre as cebolas para ajudar na caramelização e disfarçar a acidez da bebida.

    Cebolas no óleo do alho. Menos erótico do que parece.

    Extremamente.

    Extremamente.

    Enquanto a água vira vapor e o açúcar muda de cor, corte os tomates (também grosseiramente) e os coloque na caçarola (ou caldeirão) mais funda que possuir. [4] Adicione um pouco de sal [5], pimenta-do-reino e noz-moscada, tampe, coloque sobre fogo baixo e esqueça. Como a proporção de água em tomates é alta, dificilmente algo diferente de cozimento vai ocorrer nos próximos vinte minutos.

    Eu já disse que a panela tem que ser funda?

    Eu já disse que a panela tem que ser funda?

    Corte os pimentões, lembrando de tirar os talos e a maçaroca de caroços adjacente. Se seus pimentões tiverem muitas partes brancas nas laterais internas, extirpe-as também.

    Para todos os fins e efeitos, esses pimentões ainda são verdes.

    Para todos os fins e efeitos, esses pimentões ainda são verdes.

    Quando as cebolas começarem a ficar tostadas nas pontas (como na foto abaixo), destampe a panela e dê uma mexida vigorosa na massa cebolal e comece a prestar séria atenção ao que está acontecendo.

    Clique na imagem para ver a ação mais de perto.

    Clique na imagem para ver a ação mais de perto.

    Ao notar que as cebolas estão começando a grudar no fundo da frigideira e a ficar com uma cor bem mais amarronzada do que você acharia possível (foto abaixo), se prepare para a deglaceação.

    Clique na imagem para ver detalhes do processo.

    Clique na imagem para ver detalhes do processo.

    Use uma luva térmica se não tiver muita certeza do que está fazendo.
    Recomendo também retirar a panela de cima do fogão caso você nunca tenha feito isso antes.
    O que vai acontecer é o seguinte: o fundo da panela está muito, muito quente, por volta dos cento e setenta graus centígrados e sua mistura de água e vinho (ou porto) vai evaporar muito antes disso. Ou seja, as trocas de calor e de estado físico vão ser violentas e isso pode assustar os não-iniciados. Tenha isso em mente e tome cuidado.

    Apague o fogo, derrame o líquido dentro da panela, aguarde o pior da evaporação conturbada passar e mexa (eu sempre uso uma colher de pau com a ponta reta, semelhante a uma espátula), desgrudando bem tudo que estiver preso ao fundo. Você vai ver a mágica da deglaceação em ação; o fundo que parecia indesgrudável agora é um paraíso líquido caramelizado (foto abaixo).

    Clique para uma imagem de ação.

    Clique para uma imagem de ação.

    Cheque os tomates. Após uns vinte minutos em fogo baixo eles devem ter começado a perder tanto a integridade física quanto a água retida. Peles estarão se soltando e caroços solitários flutuando pelo líquido desprendido, agora povoado por bolhas pequenas e intermitentes.
    Se isso ainda não tiver acontecido, tampe novamente e deixe tempo suficiente para que isso ocorra.

    Clique para crescer.

    Clique para crescer.

    Agora, junte a cebola caramelizada, o alho frito e os pimentões cortados e mantenha em fogo baixo por mais dez minutos (tempo suficiente para amolecer levemente os pimentões sem mudar muito seu sabor e para suavizar o gosto do alho frito).
    Manter a caçarola tampada vai diminuir a perda da água (boa parte se recondensando) e do calor, mas pode fazer o líquido transbordar se você não tiver seguido minhas instruções e estiver usando uma panela rasa.
    Daí o motivo de ler a receita toda antes de começar a praticá-la. Sacou?

    Bastante área de manobra ainda dentro da panela.

    Bastante área de manobra ainda dentro da panela.

    Após dez minutos, retire a panela do fogo e use um mixer portátil (como o da foto) para transformar a massa pedaçuda em um molho liquidamente suave.

    Antes...

    Antes…

    ...depois.

    …depois.

    IMPORTANTE – Caso não possua um mixer, use o liquidificador. Mas POR FAVOR, tenha MUITO CUIDADO e em HIPÓTESE ALGUMA encaixe a tampa do copo. Se um líquido quente for agitado dentro de um corpo fechado, o ar ao redor vai esquentar mais rapidamente, se expandido velozmente e jogando tomate fervente na sua cara. Ou você deixa tudo esfriar para bater ou bata com a tampa levemente solta e com bastante espaço para o ar fluir sem fazer do seu liquidificador um artefato explosivo.
    Preferencialmente, use óculos de proteção.

    Depois de tudo batido, inclua o resto da cebola que permaneceu crua e bata novamente para incorporá-la sem que ela cozinhe.
    Nesta etapa você pode também incluir azeitonas, alcaparras, manjericão, folhas variadas, queijo e outras coisas que não devem ser cozidas (o calor residual do molho vai ativar compostos voláteis em ervas e similares mas não deve ser suficiente para cozinhar mais nada, pois agora tudo só vai esfriar lentamente).

    Se você não gosta de cebola crua, inclua assim mesmo e se surpreenda.

    Se você não gosta de cebola crua, inclua assim mesmo e se surpreenda.

    Note a mudança de cor. A cebola crua deixa o molho mais pálido.

    Note a mudança de cor. A cebola crua deixa o molho mais pálido.

    Certifique-se de usar um recipiente que caiba tudo.

    Certifique-se de usar um recipiente que caiba tudo.

    Agora, passe tudo para uma peneira de granulosidade média (muito alta e os caroços passarão; muito baixa e você vai passar o resto do dia peneirando) e vá ajudando o fluxo com uma colher. Lembre também de não sobrecarregar a peneira como eu fiz (ficou mais bonita assim na foto).
    O método que eu uso não é o de espremer o que está dentro da peneira, mas o de retirar o que já passou mas ainda não se despregou do fundo, permitindo que mais material tenha oportunidade de chegar ao outro lado. #ficadica

    A peneira só ficou cheia assim para o retrato.

    A peneira só ficou cheia assim para o retrato.

    Se você bateu o suficiente, o material a ser retido na peneira será composto somente de caroços e peles com uma ou outra fatia de cebola, principalmente proveniente daquela parte de transição entre o miolo e a casca, que não é seca demais para ser casca mas não é molhada suficiente para ser comestível.

    Molho & bagaço

    A receita fotografada rendeu um quilo e seiscentos gramas de molho para cento e trinta gramas de bagaço (que, confesso, poderia ter sido mais bem coado, mas paciência não é uma das minhas virtudes).

    Agora, você faz o que quiser com o molho. Mas aqui vão umas sugestões dos destinos que eu já dei a ele:

    – adicione bolas de carne moída, cozinhe alguns minutos e tenha almôndegas radicais;
    – ao invés de formar bolas, jogue a carne moída solta e você terá molho bolonhesa para sua lasanha;
    – derrame sobre pedaços de batatas assadas sob queijo mussarela e gratine no forno;
    – espalhe por cima de uma massa pré-assada, cubra com queijo e calabresa e coma uma pizza detonante;
    – bata novamente no liquidificador com bacon frito e tender, esquente, coloque num prato fundo, sufoque com queijo provolone ralado na hora e descubra que você gosta de sopa;
    – esquente numa panela, despeje numa travessa, adicione algumas postas de peixe e cozinhe no forno por alguns minutos até o peixe ficar firme e corra para o abraço;
    – substitua os tomates naquela receita de feijoada que seu tio ensinou;
    – use esparsamente como molho em salada;
    – dissolva um pouco de queijo gorgonzola, sirva com filé grelhado e me mande um cartão postal do Mundo da Delícia Eterna;
    – frite levemente uma fatia grossa de pão com bastante azeite, espalhe o molho por cima, adorne com queijo parmesão ralado na hora e recolha os elogios, capisce?
    – jogue por cima do miojo e saia dessa fossa desgraçada;
    – sirva com nachos, num cachorro-quente, como opção em fondue, batata assada ou até num Bloody Mary amilkshakado;
    – congele com um palito no meio e consuma como um picolé. É refrescante, ligeiramente esquisito e deixa você com um ar de sofisticação.

    Eu congelo em saquinhos com duzentos gramas de molho em cada por até seis meses. Você faça o que quiser da sua vida, não sou seu dono.

    Se você chegou até aqui, parabéns por não ter se rendido à cultura do “ou meio parágrafo ou vou ver fotos de gatinhos”. Mas peço que respire fundo porque ainda tem notas de rodapé vindouras.
    Quando fizer seu molho mande fotos, ingredientes alternativos ou, melhor ainda, sugestões de uso.


    [1] – Eu não uso amassador de alho. Acho um implemento limitado e, ultimamente, inútil. Eu uso a lateral da faca para esmagar o dente que, em seguida, é descascado e cortado em pedaços menores. Dessa forma eu tenho mais controle sobre o produto final.

    [2] – O motivo da grosseira na manipulação das cebolas é que elas vão ser reduzidas e esse processo se encarrega de separar e organizar as camadas. Isso e o fato de dar menos trabalho cortar de qualquer jeito. No final vai ser tudo batido mesmo, então não importa.

    [3] – Para as outras etapas nem tanto, mas nesta eu recomendo fortemente uma frigideira que não seja antiaderente, pois a caramelização precisa da etapa em que tudo gruda. A minha (que, já mencionei, é profissional) é de aço inox com fundo triplo, mas até uma de folha alumínio serve. Só cuide para que o fogo esteja realmente o mais baixo possível.

    [4] – A minha é de alumínio anodizado e tem vinte centímetros de profundidade, comportando oito litros. É muito, mas é ideal para o fim aludido.
    É bem verdade que a acidez do tomate não se dá com alumínio (o anodizado é protegido molecularmente, então não tem problema), mas como o processo todo não deve durar mais que meia hora, não precisa se preocupar com molho com gosto de moeda ou com o fundo da sua panela caindo.

    [5] – A adição de sal e condimentos nas primeiras etapas deve ser parcimoniosa. Ao final de tudo você deve provar um pouco e ajustar caso necessário, sempre mantendo em mente que não é possível dessalinizar sua receita.

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    Flor de sal caseira

    Existem vários tipos de sal no mercado nacional, como o sal refinado, sal grosso de espessuras variadas, sal marinho, sal de rocha, com ou sem iodo, e diferentes combinações. No mercado internacional a quantidade é, honestamente, absurda. Existe sal para picles, sal de mesa, sal para pipoca, sal kasher, sal marinho cristalizado, sal marinho em flocos, sal com baixo nível de sódio (sério!), sal orgânico (impossível, já que sal não contém carbono, elemento necessário para que algo seja quimicamente considerado “orgânico”), sal defumado, sal de limão (e outros sabores, como alecrim e sementes de coentro), sal para moedor, etc, e ainda existem sais de marca geográfica, com o sal havaiano, sal francês, sal celta, sal italiano, Kala Namak (indiano) e em vários graus de refinamento e, sendo bastante claro, higiene (existem sais que são vendidos por preços exorbitantes que contém areia, traços de enxofre, ferrugem e até restos orgânicos do fundo de lagos de onde foram extraídos).

    Um desses tipos, e que passou a ser produzido no Brasil (no Rio Grande do Norte, mais exatamente) apenas há poucos anos, é o chamado “flor de sal” que, apesar de alegações-extraordinárias-de-Wikipédia quanto à sua composição, em nada (ou quase) difere do resto do sal que será recolhido posteriormente.

    O processo é simples: água do mar é represada em alguma lagoa artificial; uma parte dessa água é colocada em áreas que parecem quadras poliesportivas e deixada evaporar pela ação natural do sol e, principalmente, do vento. Todo sal marinho é produzido assim.
    Enquanto o nível da água está baixando, ela vai ficando mais salgada (pois existe menos água para dissolver a mesma quantidade de sal, que não evapora) até que atinge um limite chamado de “saturação”. A partir desse limite, o sal vai começar a se separar da água. A maior parte vai decantar (descer para o fundo) enquanto uma pequena porção cristaliza na superfície do espelho de água. Essa porção que boia é a tão famosa flor de sal.

    Ela é cara por dois motivos:
    1) como muito pouco do material se cristaliza na superfície, o período de colheita é bem mais fugaz e deve ser feito manualmente, por trabalhadores qualificados e usando ferramentas apropriadas. Mas o motivo principal é;
    2) as pessoas aceitam pagar o preço que lhes é cobrado (porque o trabalho de recolher a flor é bem menos intenso e a ferramenta apropriada é uma rede de limpar piscina). É assim que o mundo funciona. As coisas têm o preço que têm porque os consumidores aceitam pagar. Se o gasto com a produção for maior do que esse valor aceitável, o produto sequer é produzido, e o mundo continua girando.

    Então, por que usar? Se é caro, composicionalmente idêntico (ou quase) ao sal que será posteriormente refinado, e de difícil produção, por que diabos eu usaria esse troço?
    Simples. O grão é mais grossinho, o que o faz mais fácil de usar em pitadas e de medir em colheres, e também dá um toque crocante nos pratos. E eu faço o meu em casa.

    Agora, que a parte chata ficou para trás, vamos às fotos e, especialmente, à receita!

    Clique aqui para ver as fotos, pois este é um texto visualmente intenso

    Pão

    Mais uma das minhas receitas!

    Coisas mais fáceis podem existir, mas eu duvido.
    Pense comigo: toda civilização, dos maias aos mongóis, dos zulus aos vikings, fazia pão.
    As receitas variam imensamente, tanto que hoje em dia temos pãos francês (crocante por fora, mole por dentro), italiano (completamente duro e impossível de mastigar/digerir), sírio (completamente sem propósito de ser) e etc., mas pão é, via de regra, farinha e água.

    Praticamente qualquer tipo de grão duro o suficiente que possa ser moído entre duas pedras até virar pó serve, bem como qualquer líquido passível de ser ingerido em situações ordinárias.

    Misturando os dois até que se obtenha uma massa que nem solte pedaços nem fique grudenta demais (esse truque só funciona com trigo, cevada e aveia, que contêm glúten) e a aquecendo até que se torne digerível mas não trinque nenhum dente, temos pão!
    Um pão mocho, sem vitalidade, é verdade, mas pão de todo jeito.

    Para fazê-lo crescer, são necessárias duas coisas: fungos e calor.
    O que nós, frequentadores de supermercados, conhecemos por “fermento biológico” também responde pela alcunha de “levedura”, uma espécie de fungo que, quando num lugar aconchegantemente quentinho (acima de 25 e abaixo de 40 graus centígrados) come os açúcares (ou amido) da farinha e…, bem, “excreta gasosamente” dióxido de carbono.
    Esse gás fica preso na massa pegajosa (adjetivo usado para efeito, pois eu sei que gás não gruda nas coisas) e se expande, criando bolsas de ar que farão do pão um alimento mais palatável (farinhas de milho, arroz e soja formam massa quebradiças que não crescem pois não contém glúten. Sempre lembrando) e fácil de ser mordido.

    Se a sua intenção é fazer, em casa, pão de padaria, esqueça. Aquele resultado só pode ser obtido com mistura especial e um forno com temperatura controlada (diferente da imensa maioria dos fornos brasileiros que são sempre quentes demais e variam muito quando em operação).
    É possível, no entanto, fazer pães ótimos e sem muito esforço (como bilhões de seres humanos antes de você, muitos deles seus ancestrais) usando apenas farinha de trigo, água e fermento biológico (que hoje em dia pode ser encontrado em qualquer supermercado razoável e já em envelopes de porções práticas para uso caseiro).

    Se você mora num lugar frio (onde precise cozinhar de agasalho ou pelo menos com uma camiseta de manga comprida), ligue o forno por alguns minutos (dez, no máximo) porque a massa precisa descansar num local não-frio por algumas horas enquanto cresce

    Para cada duas xícaras de farinha, adicione um envelope (ou o equivalente a capacidade volumétrica de uma colher geralmente utilizada para se tomar sopa) do fermento (Atenção! Fermento químico não serve para pães! Só para bolos) e água morna (eu sempre uso água morna, que é aquela mais quente que a temperatura ambiente mas que você ainda aguente ficar com o dedo dentro alguns segundos sem se queimar).
    Leia as instruções no pacote de fermento porque algumas marcas precisam ser hidratadas enquanto outras precisam ir diretamente na farinha seca (apesar de serem o mesmo bichinho peidão).

    Agora faça uma ruminha com a quantidade de farinha que você acha necessária (eu diria que uma xícara por pessoa é uma medida razoável) e acrescente a água em pequenos goles enquanto mexe tudo.
    Enquanto a maçaroca estiver se desfazendo em lascas, continue adicionando a água e misturando até tudo virar uma coisa só que não gruda tanto nas mãos nem na superfície que você escolheu como plataforma para o moído.
    Se ficar com água demais (extremamente peguento e com aspecto de lama de mangue marrom-claro), complete com um pouco da farinha que você prescientemente deixou sobrar no saco para uma eventualidade dessas sem que eu precisasse dizer antes (dica: aprenda com o erro de Chaves e sempre leia a receita com antecedência. Nunca cozinhe lendo em tempo real).

    Depois do ponto ideal ser atingido, é só sovar (amassar, dobrar e amassar mais) o aglomerado por alguns minutos para se certificar de que ele esteja igualmente misturado, cobrir o recipiente com um pano umedecido (caso o local onde você more seja seco demais) e deixar tudo descansar num local não-frio por pelo menos uma hora e meia (o tempo aqui é totalmente dependente das condições atmosféricas, mas geralmente duas horas é tempo suficiente).

    Agora vem a parte difícil: o forno.
    Como cada indivíduo é distinto de seus colegas (incluindo os que dividem marca e modelo), é difícil precisar a regulagem ideal.
    Meu conselho é: deixe o botão de temperatura no meio do caminho e preste atenção. Se em vinte minutos o protopão queimar, refaça a receita e use uma temperatura mais baixa. Por outro lado, se depois de meia hora a massa ainda estiver mole e com jeito de crua, refaça a receita e use uma temperatura mais alta.
    Você quer que o pão fique no mínimo vinte e no máximo trinta minutos no calor para que cresça e asse adequadamente.

    Depois disso, espere esfriar alguns minutos e coma. Anote os pontos onde você acha que foi para o caminho errado.
    Depois de umas cinco tentativas você deverá ter aprimorado a receita o suficiente (e a quantidade de sal correta, que eu só mecionei agora para provar meu ponto de ler a receita com antecedência) para querer mostrá-la aos seus amigos (substituindo uma parte da água por leite, uma parte do trigo por centeio e adicionando um pouco de azeite, talvez?).

    O próximo nível é fazer sanduíches fechados prontos. Recheie a massa com queijo, presunto, palmito, ovo cozido, alcaparras ou qualquer matéria comestível de sua preferência, repita a operação acima e torça. Geralmente dá certo.

    Relembrando:

    Ingredientes: farinha de trigo, fermento biológico, água e sal.
    Modo de preparo: misturar tudo até obter uma massa trabalhável, deixar quieto um pedaço e botar no forno quente por até meia hora. Esperar esfriar. Comer.

    Caldo de galinha

    Para inagurar a categoria receitas e complementar meu artigo sobre o Galeto do Bigode, vou começar com uma coisa simples: caldo.

    Sério, poucas coisas podem ser mais simples (teoricamente, pelo menos).

    Vejam só:

    Ingredientes: água e ossos de frango assado.
    Modo de preparo: deixe os ossos dentro da água fervente por duas horas. Coar.

    Pronto. Agora você tem caldo de galeto assado.

    Como eu disse lá em cima, é muito simples mas porque está escrito aqui. Na prática, não é assim tão fácil.
    Como uma receita sempre contém a seção “ingredientes” antes da seção “modo de preparo”, é possível esconder o fato de que obter ossos adequados não é tarefa das mais simples. Nem das mais limpas.
    Desossar uma galinha exige paciência, destreza e muito sabão de coco para tirar o cheiro das mãos.

    Eu uso esse tipo de caldo para cozinhar arroz (água com sal é muito anos 90 para mim) e sempre me agrado do resultado (especialmente quando o líquido está acabando e eu coloco alguns poucos mililitros de leite).
    Mas se forem mesmo fazer isso, chequem o sal.

    Uma dica interessante é quebrar os ossos maiores (coxas) para expor o tutano à água enquanto cozinha. Mais uma camada de sabor.
    E não precisa ser só osso também, podem deixar passar um pedacinho da carne também.


    p.s. Um caldo é apenas uma representação refeitória; ou seja, é possível usar os mais variados temperos e até tendões e capas de gordura de animais e cascas de vegetais na mistura, pois só a infusão vai sobreviver à peneira.
    E é essa “água modificada” que vai permitir que você coma um risoto (que é basicamente só arroz) sem achar que está faltando alguma coisa.

    Enquete de abertura

    Ajude a melhorar meu estabelecimento, respondendo a esse simples questionário (múltipla escolha – admite mais de uma resposta):

    Obrigado pela preferência!

    Abertura

    Minha língua já ardeu em algumas ocasiões (gosto de comida apimentada), mas nunca como quando eu comi salsicha de frango (modo de falar ou marca de fantasia, pois o que menos há na lista de ingredientes são pedaços que podem ser classificados como “frango”) frita quente, acompanhada de um molho rosé de maionese e Sriracha e depois tomei uma dose ultragelada de Smirnoff Orange Twist.

    Não sei se minha língua estava queimando com fogo ou com gelo, pois eu tinha a sensação de ter pincelado a língua com uma poção de capsaicina e mentol, ambos em amostras das mais puras possíveis.

    sriracha

    Sriracha é um molho (muito) picante feito de concentrado de néctar de ambrosia e filé de extrato de maná de uma safra especial cultivada por Vulcano e adicionado a gemas de ovos de fénix e livre de conservantes (a não ser pelo efeito estabilizante da saliva de dragão).
    Recomendo.

    otwist

    Orange Twist é uma semivodca, uma bebida feita a partir de vodca (37,5% vol para a Smirnoff) mas que contém menos etanol, diluído pela adição de flavorizantes (uma fruta e uma dança, neste caso específico), mas que com 35%gl, ainda mantém um mínimo de moral, diferente da sua prima pobre e retardada, a Smirnoff Caipiroska, que tem a cara de pau de sair por aí com 21%gl fingindo que nada está acontecendo.

    Aquela bebida tridestilada com um pouco mais de água do que deveria, produz um dos melhores drinks conhecidos por mim.
    E sem muita dúvida, o mais raro.

    A raridade de tal elixir se deve ao fato de apenas 33,33% dele ser composto por S. Orange Twist (já não tão comum em supermercados, frequentemente faltando em vários) enquanto 66,66% serem provenientes de Guaraná Ice, já retirado do mercado (eu fiz um estoque e mantenho algumas caixas na minha casa, mas elas não duraram muito, prevejo).

    A experiência de beber tal concocção é inigualável, não apenas pelo sabor inicial (guaraná com laranja) mas também (principalmente) pela sensação que procede e que dura vários minutos, tanto mais intensa quanto mais volumosa.
    Quando beber minha última latinha e a garrafa sair do mercado (como todas as coisas boas do mundo), terei que improvisar uma vodca com infusão de TicTacs sabor laranja e guaraná.

    Antes que reclamem das minhas contas, as porcentagens acima contêm dízimas periódicas (equivalente numérico para 1/3 vodca, 2/3 refrigerante), mas mesmo que não fosse esse o caso, eu chutaria que 0,001% do que eu bebo é poeira que cai dentro do copo enquanto ingiro minha bebida.
    Eu não uso gelo, preferindo usar líquidos sempre o mais gelado possível e insistindo que minhas vodcas mantenham domícilio permanente dentro do congelador.

    Por enquanto é isso.
    Bem-vindos ao Onde comer (e beber) em Natal.