Pão

Mais uma das minhas receitas!

Coisas mais fáceis podem existir, mas eu duvido.
Pense comigo: toda civilização, dos maias aos mongóis, dos zulus aos vikings, fazia pão.
As receitas variam imensamente, tanto que hoje em dia temos pãos francês (crocante por fora, mole por dentro), italiano (completamente duro e impossível de mastigar/digerir), sírio (completamente sem propósito de ser) e etc., mas pão é, via de regra, farinha e água.

Praticamente qualquer tipo de grão duro o suficiente que possa ser moído entre duas pedras até virar pó serve, bem como qualquer líquido passível de ser ingerido em situações ordinárias.

Misturando os dois até que se obtenha uma massa que nem solte pedaços nem fique grudenta demais (esse truque só funciona com trigo, cevada e aveia, que contêm glúten) e a aquecendo até que se torne digerível mas não trinque nenhum dente, temos pão!
Um pão mocho, sem vitalidade, é verdade, mas pão de todo jeito.

Para fazê-lo crescer, são necessárias duas coisas: fungos e calor.
O que nós, frequentadores de supermercados, conhecemos por “fermento biológico” também responde pela alcunha de “levedura”, uma espécie de fungo que, quando num lugar aconchegantemente quentinho (acima de 25 e abaixo de 40 graus centígrados) come os açúcares (ou amido) da farinha e…, bem, “excreta gasosamente” dióxido de carbono.
Esse gás fica preso na massa pegajosa (adjetivo usado para efeito, pois eu sei que gás não gruda nas coisas) e se expande, criando bolsas de ar que farão do pão um alimento mais palatável (farinhas de milho, arroz e soja formam massa quebradiças que não crescem pois não contém glúten. Sempre lembrando) e fácil de ser mordido.

Se a sua intenção é fazer, em casa, pão de padaria, esqueça. Aquele resultado só pode ser obtido com mistura especial e um forno com temperatura controlada (diferente da imensa maioria dos fornos brasileiros que são sempre quentes demais e variam muito quando em operação).
É possível, no entanto, fazer pães ótimos e sem muito esforço (como bilhões de seres humanos antes de você, muitos deles seus ancestrais) usando apenas farinha de trigo, água e fermento biológico (que hoje em dia pode ser encontrado em qualquer supermercado razoável e já em envelopes de porções práticas para uso caseiro).

Se você mora num lugar frio (onde precise cozinhar de agasalho ou pelo menos com uma camiseta de manga comprida), ligue o forno por alguns minutos (dez, no máximo) porque a massa precisa descansar num local não-frio por algumas horas enquanto cresce

Para cada duas xícaras de farinha, adicione um envelope (ou o equivalente a capacidade volumétrica de uma colher geralmente utilizada para se tomar sopa) do fermento (Atenção! Fermento químico não serve para pães! Só para bolos) e água morna (eu sempre uso água morna, que é aquela mais quente que a temperatura ambiente mas que você ainda aguente ficar com o dedo dentro alguns segundos sem se queimar).
Leia as instruções no pacote de fermento porque algumas marcas precisam ser hidratadas enquanto outras precisam ir diretamente na farinha seca (apesar de serem o mesmo bichinho peidão).

Agora faça uma ruminha com a quantidade de farinha que você acha necessária (eu diria que uma xícara por pessoa é uma medida razoável) e acrescente a água em pequenos goles enquanto mexe tudo.
Enquanto a maçaroca estiver se desfazendo em lascas, continue adicionando a água e misturando até tudo virar uma coisa só que não gruda tanto nas mãos nem na superfície que você escolheu como plataforma para o moído.
Se ficar com água demais (extremamente peguento e com aspecto de lama de mangue marrom-claro), complete com um pouco da farinha que você prescientemente deixou sobrar no saco para uma eventualidade dessas sem que eu precisasse dizer antes (dica: aprenda com o erro de Chaves e sempre leia a receita com antecedência. Nunca cozinhe lendo em tempo real).

Depois do ponto ideal ser atingido, é só sovar (amassar, dobrar e amassar mais) o aglomerado por alguns minutos para se certificar de que ele esteja igualmente misturado, cobrir o recipiente com um pano umedecido (caso o local onde você more seja seco demais) e deixar tudo descansar num local não-frio por pelo menos uma hora e meia (o tempo aqui é totalmente dependente das condições atmosféricas, mas geralmente duas horas é tempo suficiente).

Agora vem a parte difícil: o forno.
Como cada indivíduo é distinto de seus colegas (incluindo os que dividem marca e modelo), é difícil precisar a regulagem ideal.
Meu conselho é: deixe o botão de temperatura no meio do caminho e preste atenção. Se em vinte minutos o protopão queimar, refaça a receita e use uma temperatura mais baixa. Por outro lado, se depois de meia hora a massa ainda estiver mole e com jeito de crua, refaça a receita e use uma temperatura mais alta.
Você quer que o pão fique no mínimo vinte e no máximo trinta minutos no calor para que cresça e asse adequadamente.

Depois disso, espere esfriar alguns minutos e coma. Anote os pontos onde você acha que foi para o caminho errado.
Depois de umas cinco tentativas você deverá ter aprimorado a receita o suficiente (e a quantidade de sal correta, que eu só mecionei agora para provar meu ponto de ler a receita com antecedência) para querer mostrá-la aos seus amigos (substituindo uma parte da água por leite, uma parte do trigo por centeio e adicionando um pouco de azeite, talvez?).

O próximo nível é fazer sanduíches fechados prontos. Recheie a massa com queijo, presunto, palmito, ovo cozido, alcaparras ou qualquer matéria comestível de sua preferência, repita a operação acima e torça. Geralmente dá certo.

Relembrando:

Ingredientes: farinha de trigo, fermento biológico, água e sal.
Modo de preparo: misturar tudo até obter uma massa trabalhável, deixar quieto um pedaço e botar no forno quente por até meia hora. Esperar esfriar. Comer.

Anúncios

6 Respostas para “Pão

  1. Fernanda Poletto

    sensacional!
    quanto a mim, que consigo errar até mesmo bolo, deixo o pão para a máquina de fazer pão (uma das grandes invenções da humanidade dos últimos anos)

  2. Depois de aprender a fazer a massa a gente pode incrementar o pao. Eu coloco sementes de girassol, gergelim e linhaça. Alem disso, tambem misturo farinhas e ateh coloco aveio na massa do meu pao.
    Os graos integrais sao sujeitos a maior quantidade de agrotoxicos. A dica eh utilizar sempre os bio, sem pesticidas.

    • Carla, agrotóxicos não são absorvidos em quantidades relevantes e são, geralmente, hidrossolúveis. Basta uma lavadinha embaixo da torneira e pronto.
      E cuidado com o consumo inatura de produtos agrícolas que se dizem “sem agrotóxicos/pesticidas”. Muitos deles podem estar contaminados com fungos e bactérias (contra os quais pesticidas foram criados) e vários são tratados com venenos não-industrializados e não regulados, o que pode ser bem perigoso.

      • Sera?…

      • Agrotóxicos são a parte mais cara da produção. Se eles são usados, tenha certeza de que eles são necessários. Antes de qualquer outra coisa, produtor gosta mesmo é de dinheiro e, podendo evitar gastar, com certeza evitaria.
        Um produtor “orgânico” precisa cobrar mais caro não porque seu produto é de melhor qualidade (existem inúmeros estudos mostrando que cultivo orgânico e tradicional são exatamente iguais em nutrientes e outros benefícios) mas porque sua produção é infinitamente menor. E pragas são universais, então é preciso em algum momento tratar ou o solo ou as plantas para que seja economicamente viável produzir alguma coisa. Produtores orgânicos precisam usar algum tipo de veneno, geralmente “caseiro”. E, por ser caseiro, não é regulado em quantidade, toxicidade, etc.
        Mas, como eu disse, uma quantidade negligente é absorvida pelas plantas, então basta enxaguar frutas e verduras antes de comê-las que eles ficam completamente seguras, sejam as produzidas tradicionalmente, sejam as bem mais caras “orgânicas”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s